Quando cheguei a Prainha pela primeira vez, há mais de vinte anos, ainda era relativamente comum ver mulheres trabalhando com labirinto — uma técnica de bordado com fios puxados, muito presente no Nordeste do Brasil, particularmente no Ceará. A renda obtida com esse trabalho ajudava a sustentar famílias que, de outra forma, dependiam da pesca, uma atividade nunca previsível.

O labirinto pertence a uma antiga e difundida família de técnicas decorativas conhecidas por diversos nomes, como bordado vazado, bordado branco, bordado recortado ou bordado puxado. Exemplos foram encontrados em múmias egípcias e em muitos países, principalmente na Europa. Embora os estilos regionais variem, a técnica básica consiste em remover fios de um tecido — geralmente linho — e, em seguida, enrolar ou tecer os fios restantes em padrões decorativos. É uma tradição com raízes profundas em todo o mundo.
Uma lista não exaustiva de países e estilos inclui:
🇺🇦 Ucrânia— Merezhka / Vyrizuvannya. 🇷🇴 Romênia— Firele Trase / Șabac / Tăietură. 🇨🇾 Chipre— Lefkaritika.
🇮🇹Itália — Reticella / Punto in Aria / Punto Tirato. 🇩🇪 Alemanha — Schwalm / Point de Saxe. 🇸🇪 Suécia — Utdragsöm / Hålsöm / Vitbroderi.
🇬🇧 Reino Unido — Hardanger / Ayrshire / Broderie Anglaise / Ruskin Lace. 🇮🇪 Irlanda — Carrickmacross / Limerick.
🇩🇰 Dinamarca — Hedebo. 🇳🇴 Noruega — Hardanger. 🇵🇹 Portugal— Crivo / Bordado de Guimarães / Bordado da Madeira.
🇨🇳 China— Trabalho com fitas. 🇮🇳 Índio — Doori. 🇲🇽México— Deshilado. 🇧🇷 Brasil — Labirinto / Crivo.

A origem do labirinto no Brasil é uma questão com diversas respostas concorrentes.
A teoria mais citada defende que ele chegou durante o século XVII com imigrantes da Madeira, território português onde o crivo é uma tradição antiga. Outra aponta para o período colonial holandês (1630-1654), observando semelhanças com o bordado belga — uma teoria que ouvi de labirinteiras em Majorlândia, distrito vizinho onde muitas pessoas reivindicam ascendência holandesa. Uma terceira teoria o relaciona diretamente ao crivo lusitano, técnica comum em muitas regiões de Portugal.
Os missionários jesuítas dos séculos XVI a XVIII — em sua maioria da Espanha, França, Itália e Portugal — também desempenharam um papel significativo, ensinando técnicas europeias de costura a mulheres indígenas para a produção de vestes litúrgicas, como parte de seus esforços para converter a população ao catolicismo. Como os jesuítas atuavam simultaneamente na Ásia, África e Américas, é bem possível que técnicas de diversas culturas tenham se disseminado por meio de seus ensinamentos.
A partir da década de 1880, a industrialização corroeu gradualmente o mercado de artesanato. A produção em massa de roupas, que se consolidou na década de 1970, representou um golpe ainda maior. O trabalho manual intensivo — geralmente realizado por mulheres — tornou-se cada vez mais difícil de vender por um preço minimamente justo.
O Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, em Fortaleza, realizou recentemente uma palestra sobre labirinto como parte de uma programação mais ampla. Entre os palestrantes estavam Mestra Bia, de Aracati, minha amiga Aila, de Prainha, e a pesquisadora Izabel Gurgel, que passou muitos anos estudando labirinto no Ceará.
Izabel falou sobre como esse trabalho tem sido vital para gerações de mulheres na região — muitas das quais, nos tempos anteriores à eletricidade (que só chegou à Prainha do Canto Verde em 1999), trabalhavam à luz de lamparinas após o pôr do sol, que, por estarmos tão perto do Equador, ocorre diariamente por volta das 18h, durante todo o ano. Através do seu trabalho, essas mulheres e meninas impediram que suas famílias caíssem na pobreza extrema numa época em que havia pouco ou nenhum apoio governamental.
Mestra Bia, hoje com 85 anos, falou com profunda emoção sobre o que o labirinto significa para ela — seu amor pelo ensino, seu orgulho pelo próprio trabalho e suas esperanças e receios em relação ao futuro dessa arte. Algumas das mulheres idosas na plateia eram filhas da mulher que, há muitas décadas, ensinou a arte à mãe da Mestra Bia, que foi então transmitida à ela quando ela tinha oito anos. Com lágrimas nos olhos, ela relembrou a primeira coisa que comprou com o dinheiro que ganhou com o labirinto: um pedaço de rapadura e milho para a mãe fazer mingau.


Mestra Bia havia trazido consigo uma linda peça de delicado labirinto. Imediatamente me lembrou os azulejos decorativos vistos nos prédios mais antigos de Aracati, no estilo dos encontrados em Portugal, e Mestra Bia confirmou que sim, os azulejos eram exatamente a sua inspiração.

Aila me disse que se sentiu profundamente honrada por falar ao lado da Mestra Bia. Ela também aprendeu o labirinto aos oito anos de idade e, embora ainda não tenha recebido o título formal de Mestra, é amplamente respeitada pela beleza de seu trabalho, seu ensino e sua incansável promoção do bordado. Por meio da pequena loja anexa à sua pousada, ela oferece às mulheres de Prainha um espaço raro e essencial para que suas peças sejam vistas — sem o qual grande parte desse trabalho não seria conhecido. Espero que em breve ela receba o título de Mestra, que tanto merece.

As labirinteiras com Mestra Bia, Aila e sua filha no centro Dragão do Mar, Fortaleza
Um dos desafios específicos enfrentados pelo labirinto é que se trata de um artesanato com várias etapas distintas, tradicionalmente realizadas por diferentes pessoas que podem não conhecer as etapas anteriores ou posteriores às suas. Aila diz que a mais difícil é o corte — o corte cuidadoso dos fios da urdidura ou da trama antes de serem esticados para criar o desenho básico. Em Prainha, apenas a irmã de Aila sabe como executar os cortes mais complexos. Como acontece com muitos artesanatos tradicionais, o conhecimento está concentrado em cada vez menos mãos, e a maioria dessas mãos pertence a mulheres mais velhas.



No entanto, há motivos para esperança para os artesãos e suas habilidades em todo o mundo. O Crafts Council UK (O Conselho de Artesanato do Reino Unido)observou uma mudança pós-pandemia no perfil demográfico do artesanato, e as redes sociais estão repletas de belos trabalhos feitos à mão. Aqui no Ceará, um órgão do governo estadual conhecido como CeArt se dedica a valorizar, capacitar e promover o artesanato cearense, incluindo o labirinto, e gera renda para os artesãos por meio da venda de produtos autênticos feitos à mão em seu centro em Fortaleza. Aila e eu frequentemente participamos de feiras de artesanato onde ela vende seus trabalhos e ministra oficinas sobre as técnicas, e o número dessas feiras parece estar sempre crescendo.


A filha de Aila, Jaila, e sua amiga Iza criaram uma empresa, a Arveri, com foco em design urbano. Sua linha de roupas (exemplos acima) foi muito bem recebida e gera renda para diversas mulheres da aldeia, e eu incorporo o labirinto nos meus trabalhos em couro e nas minhas pinturas (abaixo).

Empreendedores sociais estão trabalhando com grupos de mulheres em diversas cidades da região com o objetivo de promover e desenvolver a técnica. Espero que muitas outras pessoas encontrem novos contextos para usar o labirinto e que mais jovens se interessem em aprender essa habilidade que merece perdurar.
Neste próximo fim de semana, de 16 a 18 de maio, eu e Aila com muitos outros artesãos estaremos no evento Povos do Mar, organizado pelo SESC, na Beira Mar, em Fortaleza. Venha nos encontrar se estiver por perto.
Fontes:
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