Prainha do Canto Verde.

Prainha do Canto Verde fica no litoral nordeste do Brasil, a 123 quilômetros de Fortaleza, aninhada entre o Oceano Atlântico e quilômetros de dunas ondulantes. Dentro das dunas, encontram-se lagoas de água doce que captam a luz da manhã como espelhos na areia, e além delas, a Mata Tabuleiro, uma floresta rasteira de surpreendente riqueza.

Duna alta com Prainha do Canto Verde ao fundo
Nas dunas com a Prainha do Canto Verde ao fundo.

Canto Verde faz jus ao nome. Palmeiras ladeiam a costa, suas folhas girando com o vento constante, projetando poças de sombra na areia. A praia se estende até o horizonte em ambas as direções — ampla, praticamente deserta e, na maré baixa, tão vasta que parece que o mar simplesmente se esqueceu de voltar.

Os pescadores partem antes do amanhecer. Quando a maioria das pessoas acorda, as jangadas que navegam nessas águas há gerações  já estão além das ondas. Peixe fresco e frio pode ser comprado diretamente dos pescadores em seu retorno.

As florestas e os lagoas atrás da comunidade estão repletos de pássaros — águias, corujas, garças e inúmeras espécies menores que se movem pela copa das árvores. Urubus sobem sem esforço nas correntes térmicas. Ao longo da linha costeira, aves marinhas deslizam sobre as ondas ou se espremem entre os caranguejos. Tartarugas são vistas regularmente nas águas costeiras rasas. Golfinhos passam ocasionalmente, como se estivessem verificando se tudo está como deveria estar.

É um daqueles lugares que, uma vez vivenciado, nunca se esquece.

Uma Comunidade Que Lutou Por Si Mesma

O litoral nordeste do Brasil é um dos mais belos do mundo, e a beleza tem um preço. Por décadas, imobiliárias avançaram por essa costa comprando terras, construindo hotéis e transformando vilas de pescadores tradicionais em resorts — um processo que quase sempre terminava com a população nativa realocada para o interior, separada do mar que os sustentava há gerações.

O povo da Prainha disse não!

Mapa da Prainha do Canto Verde
Mapa da Prainha do Canto Verde

Em 1976, um imobiliário comprou uma faixa de terra a certa distância da praia, usando-a para convencer um juiz de que sua compra se estendia até o mar e incluía os 749 hectares de Canto Verde. A comunidade reagiu. Com o apoio jurídico da organização brasileira de direitos humanos Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, eles contestaram a reivindicação nos tribunais. A pressão para abandonar a luta foi intensa. Homens armados contratados foram até a comunidade e fizeram ameaças de morte. Prédios foram incendiados. Uma cerca foi erguida, cortando completamente o acesso à praia. Os moradores reconstruíram, derrubaram a cerca e continuaram.

Jangada na praia ao amanhecer, Prainha do Canto Verde
Preparando a jangada para navegar
google mapa Prainha do Canto Verde
Lançamento de jangada no início da regata, Prainha do Canto Verde
Regata
SOS Sobrevivência, Prainha do Canto Verde, nordeste do Brasil
SOS Sobrevivência 1993, (Fotógrafo desconhecido)
A tripulação e equipe de apoio do SOS Sobrevivência, Prainha do Canto Verde, nordeste do Brasil
A tripulação e equipe de apoio do SOS Sobrevivência 1993, Prainha do Canto Verde, nordeste do Brasil (Fotógrafo desconhecido)

Viagem SOS Sobrevivência, 1993. Fotógrafo desconhecido.

Em 1993, a comunidade levou sua luta para o mundo. Para chamar a atenção para a luta pelos direitos à terra e os efeitos devastadores da pesca predatória de lagosta na comunidade local, quatro pescadores navegaram em uma jangada de Canto Verde até o Rio de Janeiro, com duas jovens mulheres replicando sua jornada por terra para fornecer suporte estatístico. Uma jornada de quase 3.000 quilômetros concluída em 74 dias. A viagem fez eco a uma realizada cinquenta anos antes, em 1941, quando quatro pescadores fizeram a mesma jornada para chamar a atenção para a pobreza e a ausência de apoio governamental. Essa viagem original inspirou o filme de Orson Welles, “It’s All True” (É Tudo Verdade).

Um dos tripulantes da viagem de 1993 era Chico Augusto, meu cunhado. Ele descreveu a jornada simplesmente como “difícil”, o que me parece um eufemismo considerável para 74 dias no mar em uma jangada à vela básica, enfrentando ondas de até 7,5 metros, longe de casa e da família, em águas desconhecidas.

Os homens e mulheres foram bem recebidos onde quer que desembarcassem, muitas vezes em locais onde os habitantes locais enfrentavam problemas ainda piores em relação aos direitos à terra do que os de Prainha. Infelizmente, apesar de ter ganhado manchetes em todo o mundo, a viagem não teve o impacto a longo prazo que se esperava; a pesca predatória e as questões de direitos à terra continuam sendo um problema tão grave quanto sempre foram.

No entanto, a publicidade gerada pela viagem foi usada para mobilizar apoio internacional e financiar a batalha legal. Uma campanha de faxes ao governador do Ceará exigiu o fim dos ataques à comunidade. Enquanto isso, a batalha judicial continuou, com a imobiliária recorrendo a cada derrota nos tribunais, até finalmente chegar ao Supremo Tribunal Federal, onde os três juízes decidiram a favor dos moradores e negaram à construtora o direito de recorrer novamente. Essa decisão, quase trinta anos após o início da luta, abriu caminho para que Prainha do Canto Verde fosse oficialmente reconhecida, em 2009, por decreto presidencial, como Reserva Extrativista, uma área protegida destinada a preservar o território para a comunidade que sempre viveu e trabalhou ali.

Foi uma vitória notável.

O que se seguiu foi mais complicado. As reservas exigem fiscalização, além da própria designação, e os anos que se passaram trouxeram novas pressões e novas batalhas. A história de Prainha ainda está se desenrolando e, se você quiser entendê-la melhor, encontrará muito dela entrelaçada nas postagens deste site.

Visitando Prainha do Canto Verde

Prainha do Canto Verde dá as boas-vindas aos visitantes. Existem várias pequenas pousadas administradas por famílias locais, e a comunidade faz parte há muito tempo do Tucum, uma rede que apoia e promove o turismo de base comunitária ao longo da costa do Ceará. O turismo aqui permanece local. As pessoas que você encontra, com quem come e de quem compra são as pessoas cujas famílias construíram este lugar.

Se você está planejando uma visita e gostaria de dicas sobre como chegar aqui, encontrar acomodação ou aproveitar ao máximo seu tempo, sinta-se à vontade para entrar em contato usando o formulário de contato. Terei prazer em ajudar.

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