
No ano passado, escrevi sobre minha participação no evento Povos do Mar, organizado pelo SESC e realizado em seu hotel *ecológico, Iparana, Fortaleza. Este ano, tive a sorte de poder ir novamente.
Paulo Leitão e Talitta Albuquerque, do SESC, mais uma vez fizeram um trabalho fantástico ao reunir líderes comunitários, ativistas, anciãos, artistas, músicos e artesãos de toda a costa do Ceará. Organizar a programação de cinco dias, com oficinas, palestras e apresentações para os participantes, foi uma enorme conquista logística por si só, sem falar no transporte, alimentação e hospedagem para esse pequeno exército de pessoas. Acho justo dizer que uma quantidade impressionante de trabalho foi realizada.






Gostaria de dizer que o evento foi maior e melhor do que o do ano passado, mas, embora tenha sido ótimo em termos das pessoas que apresentaram, ensinaram ou expuseram, infelizmente o palco, os estandes e outras áreas ainda estavam em construção quando chegamos, o que dificultou a montagem e as obras continuaram aqui e ali durante os cinco dias. O número de visitantes também foi menor do que no ano passado. Não acho que a divulgação tenha sido boa, mas uma série de incêndios criminosos em ônibus públicos na cidade, um deles bem perto do local, foi provavelmente o principal motivo para as pessoas não comparecerem.
A contribuição que este evento traz para a promoção do patrimônio cultural dos povos do Ceará não deve ser subestimada. A troca de conhecimentos e habilidades é realmente fantástica e o evento desempenha um papel importante na preservação dessas habilidades e tradições. Parabéns a Paulo, Talitta, sua equipe, SESC e a todos os funcionários que trabalham lá.
Outro aspecto importante deste evento é que as pessoas não apenas mostram seus trabalhos finalizados, mas também fazem demonstrações públicas dos processos envolvidos em sua criação. O público em geral pode testemunhar o esforço, o tempo e a habilidade investidos no artesanato. Conversando com os expositores, ouvi repetidamente que, em geral, seu trabalho é subvalorizado e que este evento realmente aumenta sua visibilidade.




Raimundinha é uma Mestra Rendeira e disse que já perdeu a conta de quantas vezes ouviu que os vestidos e outras peças feitas pelas mulheres da cooperativa são muito caros. No entanto, um vestido leva aproximadamente dois meses para ser feito e custa R$ 160: o que, segundo os cálculos da Mestra Raimundinha, dá cerca de 35 centavos por hora, bem abaixo dos R$ 4,54 que é o salário mínimo por hora vigente (2019) no Brasil.


Donna Edite, de Aracati, cria belíssimas peças de Laberinto. Hoje avó, ela começou a aprender o ofício aos seis anos e meio de idade. O Laberinto envolve sete etapas, cada uma delas uma habilidade em si, desde traçar o padrão, cortar e puxar os fios originais do tecido, passando pelos diferentes pontos necessários para formar o desenho desejado e, finalmente, o acabamento da peça. Donna Edite lamentou o fato de que as meninas não demonstram mais interesse pelo artesanato, mas é difícil trabalhar meses em uma peça que, no final, no final quase as entregam de bandeja.
Durante os cinco dias do evento, foram oferecidas oficinas diárias sobre uma grande variedade de artesanatos e habilidades, culinária, perfumaria, fitoterapia, dança, fabricação de instrumentos musicais, joalheria e muito mais. Palestras e debates sobre diversos temas também foram realizados, como histórias locais, a luta e a defesa dos territórios tradicionais, sustentabilidade, turismo comunitário e educação indígena, entre outros. Passeios e excursões para diferentes projetos e experiências ao longo da costa, além de conversas com líderes comunitários sobre suas vidas e memórias, também foram organizados. Há sempre tanta coisa que eu gostaria de fazer e tão pouco tempo.
Participei de uma oficina de técnicas tradicionais com barro, ministrada pela Mestra Tarina. Compro panelas e pratos dela desde que me mudei para o Brasil; uma refeição feita em uma de suas panelas tem um sabor especial, de alguma forma, melhor. Fiquei especialmente feliz em vê-la, pois ela sofreu um AVC recentemente e está se recuperando. Uma das peças que fiz parecia estar indo muito bem, até que a levantei e a base ficou presa na mesa. Ops! Obviamente, não sou uma ceramista nata, e a filha da Mestra Tarina teve que salvar minhas duas tentativas, mas foi muito divertido, todos rimos bastante.





No dia seguinte, as peças que fizemos na oficina de argila foram colocadas ao lado do trabalho muito superior da Mestra Tarina e de sua filha Raimunda, e queimadas em um forno na floresta. No dia seguinte, consegui coletar e levar para casa uma tigela e um prato, embora um pouco tortos, feitos (em parte) por mim mesma.
Também participei de uma oficina sobre a criação de abelhas Jandaira. Temos duas colmeias dessas abelhas nativas sem ferrão, elas me fascinam e foi ótimo aprender mais sobre elas. Espero que, com meu novo conhecimento, tenhamos um aumento na população de abelhas e, consequentemente, na nossa produção de mel.

Em meio ao fluxo constante de apresentações de música e dança no palco, houve dois desfiles de moda. O primeiro contou com jovens de diferentes povos indígenas, representando aspectos de suas culturas. O segundo foi um desfile de moda sustentável (embora eu ache que não haja nada mais sustentável do que as belíssimas roupas do primeiro desfile), no qual a encantadora Marcicleide desfilou com meu vestido de estampa das folhas (conhecido como eco dye) e xale de tricô, com acessórios de outros artesãos da Prainha. Todos os participantes dos dois desfiles foram fantásticos.



Recebi muito interesse de pessoas querendo aprender mais sobre impressão e tingimento com plantas. É ótimo poder compartilhar o que aprendi. E, conversando com algumas pessoas que vendem plantas e ervas medicinais, agora tenho nomes e, em alguns casos, amostras de outras plantas, cascas de árvores, raízes e frutos para experimentar.
Apenas arranhei a superfície dos eventos dos cinco dias do Povos do Mar, e logo em seguida vieram os cinco dias do Herança Nativa, onde mais povos indígenas do interior se reúnem, assim como outros grupos que podem ou não ter participado do Povos do Mar. No ano que vem será o 10º aniversário do Povos do Mar, e Paulo disse que espera torná-lo maior e melhor do que nunca. Mal posso esperar!
Há mais algumas fotos minhas do evento no meu Instagram.
*Só uma reflexão sem querer ser grosseira, mas fico pensando no uso da palavra “ecológico” em relação ao hotel. Sim, existe uma área arborizada que eles cuidam e sim, a SESC realiza alguns trabalhos ambientais, mas isso significa que o hotel é ecológico? Com base em que critérios essa afirmação é feita? Como eu disse, apenas uma reflexão.