Puxando a jangada nova no rumo de casa

/ Do Arquivo

Em meados de 2019, Neu decidiu que sua jangada era simplesmente pesada demais para ele operar. A fístula em seu braço, que ele usa para diálise, precisa de cuidados, o que significa não usar muita força com esse braço. Ele esperava que uma nova jangada, mais leve, feita de madeira compensada marinho revestida com fibra de vidro, lhe permitisse pescar com mais frequência.

Embora algumas pessoas achem que Neu é louco por querer ir pescar, isso faz parte de quem ele é, e a crença de que um dia poderá retornar à profissão que ama, se não em tempo integral, pelo menos quando puder, o manteve firme durante momentos muito, muito difíceis. Assim, em junho de 2019, Neu vendeu sua antiga jangada e encomendou a construção de uma nova em Fontainha, uma pequena comunidade de pescadores no litoral, onde Neu tem família. A previsão era de que a jangada estivesse pronta até o Natal. Como costuma acontecer, o tempo foi passando e só no início de março de 2020 recebemos a ligação para irmos buscar o barco.

Como meu aniversário é em março, Neu me perguntou, como uma tipo de presente, se eu gostaria ir com ele. A jangada só comporta duas pessoas, então fiquei um pouco relutante a princípio. Eu sei fazer o básico no barco, mas se algo acontecesse com o Neu, seria complicado. Neu disse que seu primo, que mora em Fontainha, vai acompanhar a gente para Prainha com seu próprio barco. Além disso, só iríamos quando o mar estivesse calmo. Fazia muito tempo que eu não navegava e, tranquilizado quanto à segurança, aceitei o convite com prazer.

Em linha reta, a distância daqui até Fontainha é de cerca de 49 km, mas por estrada são aproximadamente 70 km, sendo que o último trecho é por uma estrada de terra que, dependendo da quantidade de chuva, pode estar cheia de buracos enormes, dificultando a passagem e tornando a viagem lenta. Para chegar a tempo da maré alta, teríamos que sair daqui ainda no escuro, antes do amanhecer.

Partimos às 04:30hrs, chegando em Fontainha logo após o nascer do sol. O construtor de barcos havia dito a Neu que o encontraria na praia, mas, além de um homem que preparava um pequeno barco na beira da água para navegar, a praia estava vazia. Caminhamos um pouco pela praia até avistarmos o barco novo e, enquanto começávamos a examiná-lo, o homem com o pequeno barco veio conversar conosco e se ofereceu para avisar o construtor de barcos que havíamos chegado.

Em pouco tempo, um pequeno grupo estava na praia, todos dando conselhos e preparando a nova jangada de Neu para sua viagem inaugural. O primo de Neu aparentemente já tinha ido pescar e, portanto, não voltaria conosco. Não fiquei muito contente com essa notícia, mas Neu disse que o dia estava tão calmo que tudo correria bem. Confio plenamente nele e em seu conhecimento do mar e, francamente, não suportaria decepcioná-lo dizendo que não iria, pois isso significaria mais um atraso para trazer o barco de volta.

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Nascer do sol, Fontainha

Saímos da praia às 07:00hrs com a ajuda de um morador local que nos empurrou através das ondas suaves até que a água lhe chegasse à altura do peito. Depois, deslizamos como uma faca quente na manteiga. A pintura do convés do barco era lisa como vidro, o que dificultava ficar em pé na beirada, como de costume, eu não queria escorregar. Algo precisa ser feito para deixá-la mais áspera, pois é importante conseguir se equilibrar na borda para manter a parte de baixo do barco em maior contato com a água, mas isso fica para outro dia. Deixando o convés liso de lado, Neu estava radiante. Ele não costuma demonstrar muito suas emoções, mas dava para perceber que seu coração estava mais leve. Para ele, não há nada melhor do que estar no mar, e navegar em um barco novo é simplesmente perfeito.

Nos dias que antecederam a viagem, eu vinha pedindo aos elementos que nos presenteassem com tempo calmo, e acho que exagerei um pouco. Tínhamos percorrido apenas alguns quilômetros quando o vento cessou completamente, sem um sopro sequer. Ficamos praticamente parados na água. Molhar a vela ajuda a reter o vento, mas por mais água que jogássemos, não havia vento para capturar e estávamos avançando dolorosamente devagar. Agora o sol estava alto e não há sombra em uma jangada, nenhum lugar para se esconder. Molhei uma camiseta velha e a enrolei nos pés para protegê-los do sol e me refrescar.

A água lambia a lateral do barco enquanto balançávamos lentamente, o leme rangendo em seu encaixe, a madeira do mastro e da retranca batendo suavemente. Neu molhou a vela repetidas vezes, causando cascatas refrescantes no convés à medida que a água escorria, mas ainda havia pouca ondulação na água. Depois de 6 horas, tínhamos chegado apenas até Canoa Quebrada, o que significa que tínhamos percorrido apenas cerca de 15 km. Com a velocidade de mais ou menos 2,5 quilômetros por hora; nesse ritmo, seria mais rápido ir a pé!

Começamos a discutir se deveríamos atracar o barco em algum lugar e pedir ao nosso amigo que viesse nos buscar. No ritmo em que estávamos, levaríamos mais umas 14 horas para chegar em casa, mas decidimos continuar até passar por Maceió. Isso seria mais ou menos na metade do caminho e decidiríamos se continuaríamos ou não dependendo da hora em que chegássemos lá.

O despertar precoce, aliado ao balanço suave do barco e o calor, estavam me dando dor de cabeça. Por experiência própria, sei que a melhor maneira de evitar que ela piore, ou mais pior ainda que se transforme em enjoo, é dormir. O convés de uma jangada não é o lugar mais confortável para deitar, mas os coletes salva-vidas serviram como uma cama razoável e dormi por uma hora, me sentindo consideravelmente melhor quando acordei.

Sabendo que Neu queria muito levar o barco para casa hoje, e um pouco preocupado com como seu organismo reagiria a tudo isso, comecei a assobiar para atrair o vento. Isso é algo que Neu me ensinou há muitos anos; os pescadores acreditam que assobiar atrai o vento. Neu se juntou a mim e, em pouco tempo, o vento respondeu ao nosso chamado. Infelizmente, vinha do norte, o que não era muito útil, pois nos empurrava em direção à costa, justamente quando nos aproximávamos de Maceió, onde há muitas rochas submersas e onde a última coisa que queríamos era estar mais perto da praia.

Estávamos muito mais perto do que Neu queria e podíamos ver áreas onde as ondas tinham cristas brancas, demonstrando que estavam quebrando nas rochas. Neu me pediu para ficar de olho na água bem à nossa frente, enquanto ele nos guiava pelo canal, ajustando a vela a cada poucos minutos para nos manter no rumo certo. Foram trinta minutos tensos, mas conseguimos passar e Neu pôde relaxar novamente.

Agora o vento estava mais favorável e, com o aumento da velocidade, decidimos continuar para casa. Sabíamos que não chegaríamos tão rápido, mas esperávamos chegar perto de Prainha antes de escurecer. O pôr do sol aqui é muito rápido, não há um aprofundamento gradual da escuridão como estou acostumado na Inglaterra, é como se alguém tivesse apertado um interruptor: o sol se põe e, em instantes, tudo fica completamente escuro.

Estávamos comendo biscoitos e frutas, mas com o calor e o ritmo lento, nenhum de nós havia sentido muita fome até então. Sabendo que a viagem seria longa, Neu me pediu para assumir o leme para que ele pudesse preparar um almoço tardio para nós. Quando os homens vão pescar, muitas vezes ficando até cinco dias seguidos, levam um fogareiro a carvão e uma panela para cozinhar. A chama de um fósforo é colocado na casca de um coco, que pega fogo rapidamente e serve como um excelente acendedor para o carvão. Em pouco tempo, o fogo está aceso e, quando está quente o suficiente, coloca-se uma panela com água e peixe fresco (embora nós mesmos tivéssemos trazido o peixe). Após alguns minutos de cozimento, adiciona-se um pouco do caldo a uma porção de farinha, que incha e engrossa como um mingau. Essa mistura, junto com o peixe, resulta em um ensopado de peixe bem simples, porém muito saboroso e, principalmente, muito substancioso.

Felizmente, a segunda metade da nossa viagem passou muito mais rápido que a primeira. Fiquei contente que Neu me deixou dirigir.

Como moradora de Prainha, adoro navegar na jangada e entendo por que os homens são tão apaixonados por seus barcos. Chegamos à praia bem na hora do pôr do sol. Pode ser complicado chegar à praia, não é incomum que as jangadas virem nesse momento se uma onda as atingir com força, então Neu assumiu o leme para nos guiar até lá. Atracamos em segurança às 18:30hrs, assim que a última luz desapareceu do céu. Um grupo de amigos de Neu nos esperava, todos querendo ver o barco novo e dar sua opinião, examinando-o à luz de lanternas. Depois de atracar na praia, os barcos precisam ser levados para a areia seca, e os rapazes começaram a fazer isso enquanto bombardeavam Neu com um milhão de perguntas sobre o barco e a viagem.

Quando voltamos para casa, o dia tinha sido muito longo: quinze horas desde que saímos de manhã e onze horas de navegação de Fontainha para Prainha, mas foi divertido e o Neu estava mais feliz do que eu o via há muito tempo. Espero que ele logo esteja bem o suficiente para pescar com mais frequência em sua nova jangada.

A jangada recém-construída na praia
A jangada recém-construída na praia

Este é um vídeo dessa jornada.

Mais vídeos sobre a vida em Prainha do Canto Verde podem ser encontrados no meu canal do YouTube aqui.

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