Mulheres do litoral

Recentemente, tive o prazer de ser convidada para um seminário realizado em nosso centro comunitário, que reuniu cerca de 80 mulheres de vários municípios da região costeira.

Ouvimos relatos de diversas mulheres engajadas em suas comunidades de diferentes maneiras. Muitas dessas vozes eram inspiradoras; no entanto, lamentavelmente, embora as questões abordadas fossem distintas, todas elas travavam uma luta por uma vida digna, para que suas vozes fossem ouvidas por quem tem poder de agir e para que medidas adequadas fossem tomadas. Infelizmente, muitas delas enfrentam o descaso e ameaças e, em alguns casos, o medo de serem silenciadas permanentemente é muito real.

Alguns dos temas abordados foram:

Pesca artesanal. Direitos territoriais e ameaças aos modos de vida tradicionais. Educação. Saúde. Turismo e a importância de buscar um modelo de base comunitária. Parques solares e eólicos. Centros de dados. Drones utilizados para a aplicação de agrotóxicos.

Não consigo escrever sobre tudo o que foi discutido, mas a seguir apresento alguns dos argumentos que mais me chamaram a atenção.

Group 1 1024x567
group 2

Por sermos uma região costeira, muitas das mulheres têm alguma ligação com a pesca, e seu sustento depende dessa atividade de uma forma ou de outra. A pesca é considerada uma das profissões mais perigosas do mundo, e posso afirmar, por experiência própria, o quão árdua ela pode ser; no entanto, enquanto eu tive o privilégio de escolher quando sair para pescar, para muitas outras trata-se de uma questão de sobrevivência.

Pescadores artesanais lutam há muito tempo para que suas vozes sejam ouvidas e para serem incluídos nas decisões políticas que os afetam. As mulheres que se sentem vocacionadas para a pesca enfrentam as mesmas dificuldades que os homens, mas muitas vezes também precisam lutar contra normas familiares e sociais, bem como contra o preconceito de autoridades e de alguns pescadores, para serem incluídas em uma profissão que amam.

Edited Image 2 768x1024
edited image 4
edited image 3

Ouvimos os receios de muitos quanto aos efeitos negativos dos parques eólicos e solares, especialmente daqueles planejados para o ambiente marinho. Muitos acreditam que esses projetos estão avançando sem a devida consulta ou a realização dos estudos pertinentes.

Uma mulher falou sobre os danos que as fazendas poderiam causar — ​​ao ambiente marinho, à pesca e ao turismo, do qual tantos dependem — e sobre o fato de que a energia gerada se destina à exportação para a Europa (embora não toda ela), onde, implicitamente, tais empreendimentos não seriam aceitos. Esse argumento explora receios legítimos de muitas pessoas em relação ao colonialismo, mas nunca ouvi mencionarem que a Europa já possui enormes parques eólicos, tanto em terra quanto no mar, nem que os argumentos a favor e contra são tão fortes lá — e praticamente pelos mesmos motivos — quanto são aqui.

Um dos argumentos frequentemente apresentados a favor desses grandes projetos é a geração de empregos nas áreas onde os parques seriam instalados; no entanto, os números reais são contestados, uma vez que grande parte do trabalho exige mão de obra especializada e seria realizada pelas empresas — em sua maioria estrangeiras — com sua própria equipe, em vez de contratar a população local.

Ouviu-se dizer que, em áreas onde projetos de grande porte são executados por uma força de trabalho itinerante, há evidências documentadas de um aumento correspondente nas taxas de natalidade. Os pais podem ter partido para o próximo trabalho antes mesmo de saberem da existência do filho, deixando crianças que jamais conhecerão seus pais para serem criadas por mães solo.

Ao que parece, a taxa de homicídios também aumenta, possivelmente devido a conflitos entre manifestantes e trabalhadores.

O argumento não era puramente contra a implementação desses projetos. Outra mulher levantou dois pontos importantes. Gostemos ou não, precisamos de fontes alternativas de energia — e, se não forem a eólica e a solar, então quais seriam? Além disso, essas grandes empresas de energia também oferecem apoio financeiro a muitos projetos sociais e ambientais que teriam dificuldade em existir sem esse suporte monetário. Esse é mais um argumento complexo; discutir seus prós e contras exigiria mais espaço do que temos aqui.

Recebemos informações de alguém do município de Itaiçaba, situado um pouco mais para o interior em relação a este local. O município tem uma população de cerca de 7.000 habitantes, dos quais 80% dependem da carnaúba. A carnaúba (*Copernicia prunifera*) é uma palmeira endêmica da Caatinga, um bioma exclusivo do Brasil encontrado principalmente nos estados do Nordeste, incluindo o Ceará, onde a carnaúba é a árvore oficial do estado.

Carnaúba Palm Copernicia prunifera
Carnaúba (Copernicia prunifera)

A árvore cresce às margens de rios e em planícies de inundação, mas consegue resistir a períodos de seca. Ela possui grande importância ecológica, sustentando uma ampla variedade de vida selvagem e ajudando a controlar a erosão do solo. Conhecida localmente como “Árvore da Vida”, todas as suas partes são aproveitadas.

É muito conhecida pela cera, produzida a partir de suas folhas e utilizada mundialmente em uma vasta gama de aplicações, incluindo cosméticos, alimentos (aditivo E903), produtos para cuidados automotivos, entre outras. O Brasil é o único país exportador dessa cera, sendo que 35% da produção total provêm do Ceará, o que faz do estado o segundo maior produtor do país. A planta também sustenta uma grande mão de obra artesanal, que utiliza a matéria-prima para confeccionar chapéus trançados, esteiras, bolsas, móveis, cordas e muito mais.

Ouvimos relatos sobre como a atividade econômica em torno da palmeira está ameaçada em várias frentes: uma espécie invasora de planta trepadeira (*Cryptostegia madagascariensis*) mata carnaúbas adultas e impede que as mais jovens se estabeleçam. A atividade agropecuária também representa uma ameaça, com grandes áreas de carnaúba sendo desmatadas para dar lugar à criação de gado e a fazendas comerciais de camarão marinho (carcinicultura). Essas fazendas também afetam o lençol freático e, juntamente com o escoamento das lagoas artificiais, aumentam a salinidade do solo, o que, por sua vez, intensifica o desmatamento (já um problema no Ceará) e polui a água de poços, fonte de água potável para muitos. A população já não pode consumir a água de seus próprios poços e também não conta mais com a renda proveniente da carnaúba para comprar água.

cryptostegia madagascariensis
Cryptostegia madagascariensis. By Forest & Kim Starr, CC BY 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6177098

Foi reiterado em todos os tópicos que não há oposição ao desenvolvimento, mas que as pessoas devem ser consultadas, seus argumentos levados em consideração e suas necessidades protegidas, e que o desenvolvimento deve ser realizado de maneira controlada.

Outra área de preocupação é o uso massivo de agrotóxicos na agricultura. Uma busca rápida no Google revela números alarmantes: o Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Segundo relatórios que citam a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil utiliza uma quantidade superior à dos EUA e da China somados. Muitos desses produtos químicos são classificados como extremamente perigosos ou totalmente proibidos na Europa.

É legal, no país, a aplicação de produtos químicos em lavouras por meio de drones; essa prática, somada ao uso excessivo e documentado de agrotóxicos, tem gerado efeitos nocivos para as populações que vivem nas proximidades das áreas de pulverização, resultando em taxas crescentes de câncer e em preocupações quanto à saúde reprodutiva e ao desenvolvimento infantil. Alertas de saúde pública emitidos por organizações como a Abrasco e a Fiocruz indicam que o número total de casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil aumentou significativamente em paralelo à proliferação de dezenas de milhares de drones agrícolas em operação.

Os produtores orgânicos também estão ameaçados por agrotóxicos aplicados por drones que, levados pelo vento, atingem suas plantações e invalidam, assim, sua certificação de orgânicos.

Havia muito em que pensar a partir do que ouvimos naquela manhã e, infelizmente, a maior parte não era boa; mas prefiro focar nos aspectos positivos, e fiquei muito impressionada com a força das mulheres reunidas naquele espaço. Todas nós enfrentamos momentos difíceis, mas continuamos de pé, debatendo, dizendo “basta” e exigindo o direito de sermos ouvidas!

Chegamos à hora do almoço e, claramente, todos estavam com fome. Felizmente, foi servido um banquete maravilhoso, preparado por um grupo de mulheres da comunidade que costumam cozinhar para eventos realizados em aqui.

À tarde, após uma breve pausa depois do almoço, foram oferecidas várias oficinas. Devido à limitação de tempo, não era possível participar de mais de uma oficina, então todos tiveram de escolher qual fariam; como eu estava conduzindo uma delas, obviamente não pude participar das outras — o que foi uma pena, pois todas pareciam excelentes. As opções eram Biodança, massagem com escalda-pés, outra cujo nome não cheguei a saber e a minha, que era de terapia sonora.

As mulheres que optaram por participar da minha oficina pareceram gostar muito da experiência. Houve muitas risadas — o que é sempre bom — e foi uma honra trabalhar com elas.

Gostei muito do dia e fiquei muito grata pelo convite para participar.

Edited Image 5 1024x768

Junte-se à aventura

Prometemos que nunca enviaremos spam! Consulte nossa Política de Privacidade para obter mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *